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O ‘Grito pela Terra’. Entrevista com Ladio Verón

O cacique brasileiro Ladio Verón, representante do povo Kaiowá, concedeu esta entrevista durante a sua viagem à Itália, que também o levou a Roma, na Fundação Lélio Basso.


Do IHU, 22 de Junho, 2017
Por Geraldina Colotti, publicada por Il manifesto. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Qual é o propósito da sua visita?

Formar um grupo de apoio aos Guarani-Kaiowá de Mato Grosso do Sul, um povo que sofre constantes ataques e violações dos direitos humanos por parte do agronegócio, e é vítima de genocídio. Hoje as pessoas já não querem mais sofrer. Nós viemos aqui para pedir-lhe para formar um grupo que visite a nossa terra, de forma que o olho da Europa esteja conosco e veja de perto todos os produtos que são produzidos no Mato Grosso do Sul, produtos geneticamente modificados e que para tanto utilizam produtos químicos, que depois são trazidos para vocês. Isso acontece na terra dos Guarani-Kaiowá. Na Europa, queremos formar uma rede de apoio que esteja ligada diretamente aos acampamentos indígenas. Será necessário instalar nas terras novamente ocupadas uma rádio via internet, porque agora durante as retomadas [as novas ocupações] não temos rede de celular ou internet, nem eletricidade para carregá-los, e quando somos atacados muitas vezes ninguém fica sabendo.

Nós também queremos criar uma escola de formação política para que não só os líderes, mas também os jovens possam conhecer os seus direitos e saber qual caminho tomar, junto com seus irmãos da Europa. O grupo de apoio estaria ligado diretamente às comunidades através de um centro de apoio em um acampamento, talvez perto da cidade. Este centro também pode ser localizado junto com o centro de educação política. Queremos que cada país seja mais sensível à nossa causa de formação, para que os nossos líderes e os nossos jovens tenham a certeza absoluta de poder obter o reconhecimento de seus direitos, graças a esta formação. Eu vim para construir uma ponte. Depois dessa minha viagem, a Aty Guasu, a Grande Assembleia Guarani-Kaiowá, juntamente com todos os líderes indígenas, discutirá como será possível proceder e caminhar com seus irmãos da Europa.

Qual é a situação dos Guaranis no Brasil de hoje, e em especial na sua região?

Os Guaranis não têm nenhuma terra. A terra que ocupamos é muito pequena. Por esta razão, muitas aldeias sofrem por falta de alimentos, de água potável, de instalações para viver. Hoje, muitas aldeias ficam nas margens de rodovias, e até mesmo em áreas que foram retomadas há instalações precárias. Neste sentido, os Guaranis não têm o apoio do Brasil. Hoje enfrentamos grandes ameaças de latifundiários, do agronegócio, dos criadores de gado, das milícias e do próprio governo. Além de ataques armados, sofremos pelo envenenamento do ar sobre as nossas aldeias e a intoxicação de crianças, adultos e animais, sem receber qualquer assistência médica. O agronegócio veio para colocar um fim em tudo; trouxe o desmatamento, a poluição, o envenenamento dos rios. Quem fortaleceu o agronegócio foi o próprio governo estatal, os parlamentares e o IMASUL (Instituto Ambiental do Mato Grosso do Sul). Tudo o que queremos é a terra. Com a terra podemos cultivar, nos sustentar e viver. Não queremos depender de ajuda alimentar do governo.

O que mudou depois do golpe institucional de Temer?

Mudou a lei. Os deputados apresentaram leis para atacar os povos indígenas e sua relação com a terra; como a PEC 215, a Portaria 80, outras PEC que impedem a demarcação de terras indígenas. E para complicar ainda mais, o ministro da Justiça colocou à frente da Funai, o Departamento de Assuntos Indígenas do Brasil, um ruralista [vinculado ao lobby dos agricultores e pecuaristas]. Isso torna ainda mais difícil a demarcação das terras indígenas, e não apenas para os Guarani-Kaiowá, mas para todos os indígenas do Brasil.

Quais são as relações com os outros movimentos e organizações, tipo o MST?

Estamos criando uma grande assembleia em todo o país, Terra Livre, na qual haverá a participação de muitos líderes indígenas do Brasil para encaminhar uma nova proposta para recuperar a nossa terra, recuperar o que é nosso e dos nossos antepassados. Estamos em contato com diferentes movimentos, principalmente com o MST e os moradores dos Quilombos, para nos unir e pedir ao governo o respeito aos direitos dos povos indígenas, dos sem-terra e quilombolas - que são direitos constitucionais. Hoje, no estado de Mato Grosso do Sul, é difícil construir um movimento devido à pressão dos paramilitares, do governo, dos juízes estaduais que combatem os movimentos. Por isso, viemos para pedir ajuda para a Europa.

Que posição vocês assumem em relação às eleições, quais são os candidatos que vocês apoiam e quais as reivindicações que apresentam aos candidatos?

Neste momento não temos nenhum candidato, não temos nenhum partido, mas graças à mobilização dos povos indígenas podemos construir, sim, uma candidatura com todos os indígenas do Brasil. Agora sabemos que o Congresso ouve somente aqueles que são representados, por isso precisamos buscar um acordo entre todos os líderes indígenas do Brasil e começar a formar o nosso partido, mas talvez isso demande certo tempo. Já estamos tratando disso em todas as nossas reuniões.

Acho que este é o caminho, porque se nós não tivermos representantes no Congresso, será difícil. Acredito que nessa nova geração de Guarani-Kaiowá e de outros povos indígenas do Brasil já existam grupos adequados para formar esse partido e defender a nossa causa dentro do governo. Apenas queremos viver em paz em nossa terra, queremos apenas o que é nosso. Mesmo que seja apenas uma pequena parte do nosso território, e mesmo que a terra esteja devastada, os rios poluídos, queremos viver ali. A floresta vai voltar, os peixes vão voltar, os animais vão voltar, vamos encontrar nossas soluções para a floresta, criaremos os nossos filhos e os nossos netos, de acordo com o nosso Ñandereko, o nosso estilo de vida. Queremos usar as nossas terras como reconhecido pela Constituição, e, por outro lado, o Brasil só vai mudar se corrigir seus erros. O que queremos é que o país reconheça que somos seres humanos e que temos direitos, como todos os outros.

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