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Não foram as listras nem as estrelas, por Fernando Horta

É preciso ter cuidado ao pesar o papel dos EUA nos acontecimentos brasileiros desde 2013. Não estou entre os que creem que os Estados Unidos estão na base da articulação política que levou ao golpe de 2016. Penso que existem quatro grandes motivos para minha dúvida:


Do GGN, 13 de Junho, 2017
por Fernando Horta


1) Em primeiro lugar há que se tomar cuidado com a geopolítica. Ela costuma “provar” aquilo que queremos que ela prove. São tantas variáveis, tantos atores e tantas generalizações que podem ser feitas, que quase tudo pode ser sustentado. É claro que um país do tamanho político internacional dos EUA tem interesses em todos os lugares do mundo. Durante a Guerra Fria, por exemplo, os Democratas requeriam recursos ao parlamento para “defender os interesses” em todas as partes do mundo, “mantendo vigilância e possibilidade de agir”. Os Republicanos diziam que “apesar dos EUA serem uma nação grande e potente, ela não pretende tomar a função de Deus” já que observar e agir sobre todo o globo seria uma função apenas d'Ele. Esta pequena anedota serve para mostrar que é controverso o uso do termo “EUA” como um ator unitário.


É claro, que dentre as áreas que democratas e republicanos concordam que sejam de interesse dos EUA estão as com petróleo. O pré-sal é sim de interesse e poderia ensejar uma ação norte-americana. Entretanto, a capacidade econômica e comercial deles é tão superior à do Brasil que é mais barato para eles pagarem os dólares que o Brasil pede e tomar o controle do petróleo na forma estabelecida pelo Brasil. Talvez a entrada da Petrobrás no mercado norte-americano com a compra de Pasadena, mais o protagonismo brasileiro no Porto de Mariel, pudesse representar um incômodo maior aos “irmãos do norte” do que o pré-sal propriamente dito. Mas aqui, de novo, não há nada efetivamente claro nem concreto.

2) Há um claro viés nos estudos de História e Política latino-americana quando se trata de EUA. Tudo é descrito como tendo o dedo dos “Yankees”, desde o século XIX, pelo menos. “Cachorro mordido por cobra tem medo de linguiça” dirão alguns. É verdade, mas a historiografia brasileira tem trabalhado muito para que nos voltemos a estudar o Brasil, nossos problemas, nossas elites, nosso povo e não ficar usando o recurso explicativo do “inimigo externo”. Não há que se retirar o foco da crítica e combate das nossas elites políticas falidas e da nossa elite econômica antidemocrática e preconceituosa. Os EUA (alguns atores internos lá) podem ter interesses pontuais claros em determinados assuntos, mas não tem o poder de concertação que uma parte da esquerda (esquizofrenicamente na minha opinião) acredita.

Lembremos que os EUA não conseguiram organizar nenhuma ocupação internacional bem-sucedida (deixando o país mais democrático ou com economia mais forte se comparado o início e o fim do controle norte-americano) desde o Japão. Os fiascos são gritantes desde a “Baía dos Porcos” até o Afeganistão. É um pensamento mágico acreditar que os EUA são efetivos e eficazes quando se trata de política internacional. A CIA, por exemplo, é muito mais conhecida pelos erros do que pelos acertos em comparação com suas congêneres a KGB e o Mossad, por exemplo.

É claro que se já existe uma pré-disposição das elites para a transgressão democrática, a ajuda norte-americana é potencializadora da ação. Exatamente como aconteceu em 1964. Mas não é crível que os EUA tenham um poder de engenharia política e social para promover a debacle que vimos no Brasil desde 2013. Nem em países menores, mais fracos economicamente e em momento da Guerra Fria os EUA foram bem-sucedidos. O caso da Nicarágua e El-Salvador são bastante eloquentes.

3) Existem inúmeros atores internos dos EUA que são capazes de ações internacionais por cima do próprio governo norte-americano. Existem trabalhos muito claros mostrando como os think tanks, as universidades e a máquina cultural norte-americana tem sido efetiva em propagar seus valores pelo mundo. Muito mais do que o governo poderia fazer. Wall Street e toda a máquina das “Agências de Risco” (sumidas na era Temer), das grandes agências financeiras internacionais e do próprio domínio do dólar são uma ferramenta de ação que, não depende das ações de governo.

As empresas petrolíferas, talvez, sejam, neste aspecto, o exemplo mais claro. A força de atuação delas pelo globo todo é histórica (especialmente no Oriente Médio). Muitos são, no Brasil, americanófilos (fazem extensas homenagens aos norte-americanos) e comparam o nosso ambiente de negócios com o de lá. Normalmente sem conhecer nem a história, nem a política ou economia dos EUA suficientemente apontam a “corrupção desenfreada” no Brasil como uma diferença. A verdade é que Obama tinha obrigado, pela primeira vez, todo um controle externo às ações destas empresas, tentando coibir exatamente a corrupção, que se sabe ser moeda das petrolíferas dos EUA. Trump retirou a lei que tornava obrigatório auditoria externa e relatórios anuais. Percebe-se aqui o pragmatismo americano que, enquanto denuncia a “corrupção” da Petrobrás e se coloca como parte nos estranhos acordos internacionais assinados ilegalmente pelo juiz Moro, isentam suas empresas de se submeterem às mesas regras. Veja que o governo de lá apenas se adapta aos interesses e práticas do establishment capitalista. Algo que o senador Bernie Sanders e a senadora Elizabeth Warren denunciaram com precisão na campanha passada e que poderia ter evitado a eleição de Trump. O fato é que ao falar em “interesse dos EUA”, deve-se dizer interesse de quem efetivamente. Isto para evitar que se acredite no malévolo “Tio Sam” movendo cordas e controlando o mundo todo.

4) Os EUA têm diversas agências que estão muito longe de cooperarem umas com as outras. Um exemplo do passado é o Departamento de Estado e o Comitê de Atividades Anti-Americanas. Enquanto o Departamento gastava enormes somas para trazer dissidentes soviéticos para os EUA, dar-lhes possibilidade de viver no capitalismo e usar a figura deles como propaganda anti-soviética, o Comitê gastava uma quantidade de dinheiro ainda maior para manter estes “imigrantes” sob supervisão diária procurando por “espiões”. Investigações do congresso americano mostraram que não só as agências mantinham atividades desconhecidas umas das outras como, muitas vezes o que uma fazia a outra desfazia, gastando duplamente o dinheiro do contribuinte sem resultado. Atualmente, uma situação parecida ocorre entre a CIA e a NSA, por exemplo. A NSA trabalha com ferramentas que estão colocando toda a história da inteligência americana em xeque. Elas competem por verbas dentro da estrutura do governo americano. Durante a campanha de Trump viu-se ainda outro conflito, entre FBI e CIA. Se não é fácil obter uma cooperação destas agências dentro dos limites do território americano, tanto mais improvável que esta cooperação se dê quando em ações internacionais, e de forma eficaz. Claro que houve espionagem sobre o governo brasileiro, sobre a Petrobrás e sabe-se lá mais quem. Mas imaginar que esta espionagem foi pensada e colocada num plano para destruir o Brasil penso não ser correto. As informações, todas e qualquer delas, podem ter canais públicos e privados para chegar a agentes decisórios. É mais plausível imaginar que o montante de informações produzidas pelas diversas agências nos EUA tenha induzido interesses diversos, em diferentes atores, e não um plano unificado para agência no Brasil.

Isto não quer dizer que eu acredite que os EUA não tiveram nenhuma ação dentro do que ocorreu em nosso país. Apenas que acho que não foram e não são a “inteligência” por trás dos atores e também defendo que são agentes diferentes. Diversos agentes privados agindo de forma mais efetiva e direta do que os públicos.

Nossa vilania enquanto sociedade, nossas elites políticas e seu histórico egoísmo argentário e a fraqueza das nossas instituições somaram-se ao domínio oligopolizado da mídia para produzir o colapso que estamos presenciando. Isto somado aos diversos interesses pontuais que Dilma frustrou (judiciário ao não conceder aumento, Cunha e Temer ao cortar seus canais de corrupção com a nomeação de Graça Foster, e etc.) respondem pela “tempestade perfeita” de 2016. Os interesses internacionais ajudaram a potencializar o efeito, mas não lideraram o processo e sequer tiveram controle sobre ele.

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