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Miguel Urbano Rodrigues, cidadão do mundo

"O meu eventual leitor não sabe o esforço que fiz para escrever, sem emoção, esta pouca de linhas sobre o Miguel Urbano. A notícia de sua morte foi, para mim, como um soco na boca do estômago. Sei que, sem este meu amigo e camarada, o mundo de que ele foi cidadão pleno ficou mais pobre."


Do Blog da Boitempo, 13 de Junho, 2017


Morreu Miguel Urbano Tavares Rodrigues (Moura, 2.8.1925-Vila Nova de Gaia, 27.5.2017). O seu falecimento foi objeto de incontáveis obituários na imprensa europeia (portuguesa, espanhola, francesa), latino-americana (e, obviamente, brasileira) e africana (em especial, mas não exclusivamente, nos Palops – os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Explica-se: Miguel Urbano, português do Alentejo, tornou-se um cidadão do mundo – conheceu várias dezenas de países de quatro continentes, por muitos anos viveu no Brasil e, no fim do século XX, alguns em Cuba.

Miguel Urbano, porém, jamais foi um turista acidental: tornou-se cidadão do mundo porque, por onde passou, participou direta ou indiretamente das lutas sociais que ali se travavam, porque investigou, documentou e denunciou – na condição de jornalista – a miséria, a opressão e a injustiça; e porque sempre orientou a sua conduta cívica pelos ideais socialistas.

Se acaso o meu eventual leitor examinar, aleatoriamente, pelo menos uma dezena dos obituários a que me referi, verificará que a atividade de Miguel Urbano é sobretudo evocada pelo notável jornalista que ele foi. Começou, ainda jovem, quando frequentava o curso de Letras na hoje Universidade de Lisboa, no Diário de Notícias (1949-1956) e depois, ainda capital portuguesa, no Diário Ilustrado (até 1957). Pressionado pela censura salazarista, deixou o país e fixou-se no Brasil: aqui esteve de 1957 a 1974, foi editorialista de O Estado de S. Paulo e, na primeira metade dos anos 1970, editor internacional da revista Visão – ao mesmo tempo em que participava do Portugal Democrático, órgão dos antifascistas portugueses editado, entre 1956 e 1975, também em São Paulo.

A aventura que foi o sequestro do “Santa Maria”, em 1961 – a famosa operação Dulcineia, capitaneada por Henrique Galvão (1895-1970) –, tornou-o amplamente conhecido e, de algum modo, conscientizou-o da necessidade de um combate mais organizado para a derrubada do regime de Salazar. Simpático ao socialismo, três anos depois vinculou-se ao Partido Comunista Português/PCP (certa feita, observou que esta decisão, que marcaria toda a sua vida, fora influenciada pela leitura, em 1961, do romance O caminho das tormentas, de Alexei Tolstoi).

A Revolução dos Cravos possibilitou o seu regresso a Portugal. Logo assumiu a redação do Avante!, órgão oficial do PCP e, em 1976, a direção de O diário, jornal de massas que circulou até 1990. A partir de 1986, dividiu o seu trabalho editorial com a intervenção política institucional: começou na Assembleia Municipal de Moura, passou como deputado pela Assembleia da República (1990-1995) e chegou à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa. Embora tivesse raízes em suas origens familiares (seu pai, abastado proprietário alentejano, colaborara na Primeira República portuguesa com Afonso Costa, o mata-frades), a prática da política institucional não o entusiasmava: sua paixão era o jornalismo. E essa paixão o impulsionou, já no século XXI, ao exercício jornalístico através de novos instrumentos: em 2002 criou o site resistir.info e, em 2006, o diário.info.

Com suas colunas e seus textos redigidos em prosa escorreita, cristalina e direta publicados em dezenas de veículos de várias partes do mundo, justifica-se a ênfase que os obituários deram à sua atividade jornalística – e, em Portugal, ficou mais que comprovado que Miguel Urbano ocupa, na imprensa do país, no século XX, um lugar ímpar.

Penso, contudo, que essa ênfase pode obscurecer, ou deixar na sombra, outras dimensões do seu fazer, como é o caso da sua intervenção como organizador cultural, de que é emblemática a criação dos Encontros Internacionais de Serpa, eventos de ressonância que Miguel Urbano organizou em 2004, 2007 e 2010, reunindo pensadores de vários países. Pode, ainda, minimizar a sua reflexão teórico-política, exemplificada em ensaios como Opções da revolução na América Latina (1968), Revolução e vida (1977) e Nómadas e sedentários na Ásia Central (1999). E isto sem mencionar as suas incursões literárias: O homem de negro (1958), Do fundo do tempo (1979), Alva (2001) e A metamorfose de Efigénia (2010). Vale lembrar que, assim como a política institucional, também a literatura envolveu outro familiar seu: o irmão Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), igualmente um conhecido opositor do regime de Salazar, foi ficcionista de nomeada, premiado pela Associação Internacional de Críticos Literários e tendo as suas obras completas editadas pela D. Quixote (Lisboa).

Por outra parte, julgo que devemos considerar que, substantivamente, Miguel Urbano foi um escritor. Não creio que se aplica a ele a imagem de um polígrafo: seja como jornalista, como publicista político, como pensador fino (leia-se, por exemplo, a Meditação descontínua sobre o envelhecimento, de 2009), Miguel Urbano não tinha a linguagem apenas como meio – ela era artesania e arte. Provam-no as suas memórias, os belíssimos dois volumes de O tempo e o espaço em que vivi (2002): nelas, relações e experiências pessoais são transfiguradas em evocações que apreendem o essencial do movimento sociocêntrico de um homem que se dispôs, durante a segunda metade do século XX, a interpretar e transformar o mundo.

Talvez caiba aqui, a finalizar, uma nota pessoal. Meu primeiro encontro com Miguel Urbano ocorreu em São Paulo, em finais de 1973; depois nos revimos em Portugal, em 1976 e 1977. Não aprofundamos relações e, anos depois, quando me tornei correspondente no Brasil do seu O diário, passamos por alto as razões dessa cordial distância. Julgo que havia razões políticas para relações tão cautelosas: à época, Miguel Urbano me identificava, equivocadamente, como um “eurocomunista” – e, à época, essa qualificação era muito pouco simpática a membros do PCP. Só nos aproximamos mesmo em meados dos anos 1980, quando ele saudou com entusiasmo um ensaiozinho meu sobre a Revolução dos Cravos. A partir daí e ao longo das décadas de 1990 e 2000, tornamo-nos bem chegados.

O meu eventual leitor não sabe o esforço que fiz para escrever, sem emoção, esta pouca de linhas sobre o Miguel Urbano. A notícia de sua morte foi, para mim, como um soco na boca do estômago. Sei que, sem este meu amigo e camarada, o mundo de que ele foi cidadão pleno ficou mais pobre.



Inédito de Miguel Urbano Rodrigues na Margem Esquerda

Miguel Urbano Rodrigues é um dos autores do novo número da Revista semestral da Boitempo, que acaba de chegar da gráfica. A Margem Esquerda #28 é uma edição especial, inteiramente dedicada ao centenário da Revolução Russa, que abre com uma longa entrevista com Anita Leocadia Prestes, e inclui um dossiê de capa sobre “feminismo, marxismo e a Revolução Russa, assinado por Maria Lygia Quartim de Moraes, Rejane Hoeveler e Wendy Goldman. Compõem a seção de artigos inéditos, além de Miguel Urbano Rodrigues, Michael Löwy, Slavoj Žižek e Ricardo Pazello. Na seção “Clássico”, uma longa reflexão de György Lukács sobre o stalinismo, e na seção “Documentos”, dois preciosos textos de Valentina Terechkôva e Astrojildo Pereira, respectivamente sobre “mulher e socialismo” e sobre o impacto da Revolução de 1917 no Brasil. A seção de poesia traz um poema de Maiakovski, selecionado, traduzido e comentado por Flávio Aguiar. A seção de imagens, coordenada por Sergio Romagnolo, traz obras de Kazimir Malevich.

Promoção de assinatura



Para comemorar o lançamento dessa edição especial, dedicada ao centenário da Revolução Russa, está rolando até o dia 30 de junho uma promoção bolchevique de assinatura. Quem fizer uma assinatura bi-anual até o dia 30/6, ganha, além de 15% de desconto, um exemplar gratuito da Margem Esquerda #10, que conta com dossiê temático dedicado aniversário da Revolução Russa, com artigos de Moshe Lewin, Virgínia Fontes, Tony Wood e Moses Guinzbourg, além de clássico de Vladimir Lenin, entrevista com Chico de Oliveira e artigos inéditos de Göran Therborn, Daniel Bensaïd, Michael Löwy, Vera Malaguti Batista, Maria Orlanda Pinassi, Roberto Leher, Maria Carlotto e Pablo Ortellado, entre outros. Não perca! Clique aqui para fazer a sua.





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José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é coordenador da “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. Recentemente, organizou o guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015). No Blog da Boitempo escreve mensalmente, às segundas, a coluna “Biblioteca do Zé Paulo: achados do pensamento crítico“, dedicada a garimpar preciosidades esquecidas da literatura anticapitalista.

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