Pages

Incêndio em Portugal gera debate sobre o eucalipto, um dos motores econômicos do Brasil

O incêndio que na última semana devastou mais de 30 mil hectares de floresta e matou 64 pessoas em Portugal levantou mais uma vez o debate sobre os riscos do plantio de eucalipto, uma atividade com crescente importância para a economia do país europeu - assim como para o Brasil.

Foto: José Coelho/Agência Lusa. Fonte: EBC Brasil

A reportagem é de Mamede Filho e publicada por BBC Brasil, 25-06-2017.


Do IHU, 26 de junho, 2017

Nos dias que se seguiram à tragédia em Pedrógão Grande, na região central do país, diversos setores da sociedade portuguesa começaram a cobrar maior controle do plantio de eucalipto, a árvore dominante na área afetada pelo incêndio e que representa cerca de 30% de toda a cobertura florestal portuguesa.

Uma petição online que já recolheu assinaturas suficientes para ser obrigatoriamente discutida no Parlamento exige a revogação de um decreto-lei, assinado em 2013, que facilitou o plantio do eucalipto. A árvore apresenta alta rentabilidade financeira em curto prazo, mas também é conhecida por ser muito inflamável

"O decreto-lei 96/2013 implementou o novo regime de arborização, que liberaliza a plantação em monocultura de eucalipto, deixando de ser necessário pedido de autorização prévia às autoridades florestais para plantar até dois hectares", explica o texto da petição.

Segundo o engenheiro zootécnico João Camargo, a política de incentivo à plantação de eucalipto não é recente e causou uma mudança profunda no território do país europeu. "Existe há algumas décadas um predomínio total da pasta de celulose sobre outros setores da indústria florestal, graças a uma sequência de governos responsáveis por uma legislação muito favorável à proliferação do eucalipto", afirma Camargo, doutorando em alterações climáticas e políticas de desenvolvimento sustentável pela Universidade de Lisboa.

A indústria papeleira rende cerca de 2,8 bilhões de euros (mais de R$ 10 bilhões) por ano a Portugal. No Brasil, segundo a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), que reúne produtores de celulose, papel, painéis e pisos de madeira e florestas no país, o setor gerou US$ 28,1 bilhões (cerca de R$ 88 bilhões) só no ano passado, com participação de 9,3% nas exportações da balança comercial brasileira.

Além disso, a produção nacional de celulose totalizou 18,7 milhões de toneladas em 2016, crescimento de 8,1% em relação a 2015. O resultado confirmou o Brasil como o quarto maior produtor do mundo e deixou o país a um passo do Canadá, o terceiro, e da China, que ocupa a vice-liderança mundial no setor.

A projeção agora é que a produção brasileira assuma a vice-liderança ainda esse ano, ficando atrás apenas dos Estados Unidos. Segundo a Associação Brasileira de Produtores de Florestas Plantadas (Abraf), as áreas de plantios florestais com eucalipto estão distribuídas em todo o território nacional - 54,2% se concentram no Sudeste, 16,4%, no Nordeste, 12,2%, no Centro-Oeste, 11,8%, na região Sul e 5,5%, no Norte.

'Árvore de gasolina'


O plantio em larga escala do eucalipto é criticado por ambientalistas, que apontam contribuição à destruição de recursos hídricos - o que alimenta a erosão - e ao desaparecimento da fauna, já que poucos animais conseguem se alimentar de suas folhas.

Além disso, o seu poder de gerar e propagar incêndios levou a espécie a receber o apelido de "árvore de gasolina". "Um dos principais problemas do eucalipto é que ele arde muito rápido e é muito resistente ao fogo. Ele continua a sobreviver durante o incêndio e graças ao calor a sua casca se solta do tronco, se transformando em condutor das chamas", explica Camargo.

"Estamos falando de uma árvore que vem de uma região em que as queimadas são muito comuns. Na verdade, o eucalipto aprendeu a usar os incêndios para se expandir, tomando o lugar da natureza que foi destruída pelo fogo", afirma o especialista português.

Apesar das campanhas de prevenção às queimadas, Portugal registra todos os anos um alto número de incêndios durante o verão, quando o clima seco e quente facilita a propagação do fogo.

Segundo o instituto estatístico luso Pordata, somente entre 2010 e 2015 foram identificados 110.634 focos de incêndio no país, uma média de aproximadamente 18,5 mil queimadas por ano.

"Os incêndios são uma característica do clima mediterrâneo e isso não vai mudar. A diferença desse ano para os anteriores é que no passado recente nós conseguimos evitar que pessoas morressem nessas grandes queimadas", diz João Camargo.

Riscos no Brasil


Segundo o engenheiro florestal Alexandre Franca Tetto, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o plantio de eucalipto no Brasil tem características distintas da realidade portuguesa, o que minimiza os riscos de uma tragédia como a que aconteceu em Pedrógão Grande.

"Temos um uso do solo diferente de Portugal, Chile e Estados Unidos (Califórnia), onde as casas estão próximas às florestas. Nesses casos, é preciso atuar bastante na silvicultura preventiva, o que não ocorre no Brasil", explica Tetto, que é doutor em conservação da natureza e especialista em prevenção e combate a incêndios florestais. Ainda assim, o especialista da UFPR destaca a importância de acompanhar com cuidado o plantio de árvores suscetíveis a queimadas no território brasileiro.

"Os cultivos florestais ocupam menos de 1% do território brasileiro. Apesar disso, o eucalipto e outras espécies, como pinus, teca e araucária, merecem atenção por serem mais inflamáveis que outras, apresentarem continuidade e quantidade de material combustível", afirma.

Tetto destaca o trabalho das empresas na prevenção das queimadas no país. "Os plantios de eucalipto existentes no Brasil são de empresas florestais ou proprietários fomentados por elas. Em função disso, e sabedores do perigo que os incêndios florestais representam, todas possuem ações de prevenção."

Ele cita os trabalhos de educação e sensibilização da população, fiscalização, construção e manutenção de aceiros, realização de queimadas controladas, construção de açudes e silvicultura preventiva. "Além disso, possuem brigadistas que são periodicamente treinados."

Mesmo assim, diz que o risco de uma tragédia como a ocorrida em Portugal não pode, diante de experiências do passado, ser totalmente afastado no Brasil. O especialista cita um incêndio ocorrido em 1963 no Paraná, no qual dois milhões de hectares foram queimados e 110 pessoas morreram, e outro em Roraima, em 1998, quando 1,5 milhão de hectares foram atingidos.

Respaldo oficial


Embora seja criticado pelos ambientalistas, o plantio do eucalipto é defendido pelo setor agropecuário.

Em seu aniversário de 50 anos, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) publicou um estudo intitulado "Plantio de eucalipto no Brasil - mitos e verdades", em que refuta algumas das acusações contra essa espécie, como a de contribuir com a destruição de recursos hídricos.

"A falta de água é ocasionada principalmente pelas más práticas de cultivo adotadas pelo produtor e pelo uso inadequado dos recursos hídricos, não pelo tipo de cultura cultivada", afirma o texto, que também nega a ideia de que o eucalipto seja responsável pelo surgimento dos "desertos verdes", como são conhecidas as regiões florestais em que não há vida animal.

"Os ecossistemas das áreas de florestas plantadas também são muito singulares e bastante ricos em biodiversidade (…) As áreas plantadas e cultivadas com os eucaliptos, por felicidade técnica e econômica, são em sua maioria áreas de pastagens degradadas ou locais anteriormente utilizados pela agricultura de forma intensiva", diz a CNA.

Houve incentivo para o plantio do eucalipto em diferentes administrações em Portugal, mas a morte de 64 pessoas no primeiro incêndio do verão europeu em 2017 deve acelerar alterações na legislação em vigor.

"A revogação da lei que liberalizava o plantio do eucalipto já fazia parte do programa do atual governo, só não foi executada ainda porque não houve consenso no Parlamento. Mas uma tragédia em que mais de 60 pessoas morrem não pode passar em branco e deve impulsionar as reformas que estavam paradas", afirma o engenheiro florestal João Camargo.

Na sequência ao incêndio da última semana, o governo luso estabeleceu o dia 19 de julho como data limite para a votação em plenário de um pacote que inclui 12 medidas ligadas à reforma florestal que estavam paradas no Parlamento, entre elas uma que trava a expansão do plantio de eucalipto em Portugal.

No entanto, para Fernando Lopes, presidente da Câmara de Castanheira de Pera, um dos municípios atingidos pelo incêndio em Pedrógão Grande, não é preciso adotar uma postura "radical" contra o eucalipto, que deve ser encarado como "riqueza" para a região.

"Temos é de encontrar uma forma mais ordenada e sustentável de plantar eucaliptos. Aproveitar esse momento para fazer aquilo que se falou durante anos e anos", disse o político em declarações publicadas pela agência local Lusa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário