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Educação não funciona se não for prazerosa

Cesar Brustolin / SMCS


Aprendizado no Brasil é pior do que em outros países, pois, além de a educação ser ruim, não ensina a gostar de estudar, nem a entender sua importância


Da Carta Capital, 20 de Junho, 2017por Marcos de Aguiar Villas-Bôas 


A sede pelo conhecimento precisa ser despertada logo cedo

Concluímos o último texto tratando da influência de Rousseau sobre Pestalozzi e do primeiro projeto educacional deste último, que se deu entre 1775 e 1780 em Neuhof, na Suíça. É natural que muitos se surpreendam com a decisão do autor de apresentar histórias e ideias desveladas nos séculos XVIII e XIX, suspeitando não terem elas qualquer utilidade em pleno século XXI.

Outros, os nacionalistas ingênuos, dirão que não é preciso recorrer a estrangeiros, sobretudo do passado, bastando ler Paulo Freire, mas o brilhante brasileiro, que afirmava ter aprofundado muito o seu conhecimento quando viveu exilado do país, trazia muitas das ideias apresentadas bem antes pela “trilogia” Rousseau, Pestalozzi e Rivail, ainda que sem se referir a eles. Além disso, a perspectiva carregada de luta de classes de Freire é inferior à perspectiva de união, sem perder a postura crítica, dos três autores referidos.

Assim como as reflexões de Sócrates, Platão e Aristóteles ainda são atuais após mais de 2 mil anos, os três profetas da educação aqui em análise são atualíssimos e apresentam boas soluções para os problemas brasileiros.

Com 35 anos, em 1781, Pestalozzi publica Leonardo e Gertrudes, provavelmente a sua obra mais lida, provando que a experiência em Neuhof deu frutos positivos, pois ali começa a traçar o seu método educacional, que seria utilizado pelo personagem retratado em uma moça humilde chamada Gertrudes para bem educar os seus filhos e as pessoas a sua volta, salvando o seu marido da preguiça e da embriaguez, e alterando as próprias instituições da sua vila.

Muitos receberam essa obra como um mero romance, sem notar o seu objetivo maior de transmitir a importância da educação, e de um tipo específico de educação, para a reconstrução social, algo que incomodava o seu autor, para quem aquela concepção de educação e de sociedade poderia ser utilizada em todas as vilas de modo a causar mudanças drásticas no mundo.

Em 1792, Pestalozzi é condecorado pela Assembleia da Revolução Francesa, que lhe oferece cargos importantes, os quais são recusados por ele sob o argumento de que apenas queria ser professor (mestre-escola). Era uma figura excêntrica para os padrões, que tinha certa dificuldade de convivência com os demais, pois raciocinava, na maior parte do tempo, em outro nível de consciência.

Em 1798, após a invasão da Suíça pelos franceses, Pestalozzi reúne cerca de 60 crianças, a maioria órfãos, em um convento abandonado em Stans, e aplica o seu método educacional ao mesmo tempo em que o desenvolve. Esse período de alguns meses está retratado no belo filme “Para sempre Pestalozzi” e mostra a dificuldade que ele tinha de conviver especialmente com os mais abastados. O breve projeto foi interrompido pela requisição do prédio para uso como hospital militar.

Em 1799, Pestalozzi atua como professor numa escola e fica conhecido por buscar, de forma até pioneira, um desenvolvimento mental dos alunos através da educação. Segundo ele, seria preciso “psicologizá-la”.

Cada vez mais reconhecido, após outros livros, ele publica “Como Gertrudes ensina os seus filhos” em 1801, revelando desenvolvimento e melhor organização do seu método em relação à obra de 1781.

O método Pestalozzi é, de certa forma, a colocação em movimento das ideias de Rousseau, com aperfeiçoamentos na prática do dia a dia por meio dos seus projetos reais. Rousseau era um gênio filosófico que decidiu tratar, dentre vários outros temas, de educação, enquanto que Pestalozzi era um gênio da educação que tratava às vezes de questões filosóficas, até porque não há boa educação sem reflexão filosófica acerca das grandes questões humanas perante nossos problemas práticos.

Rousseau já dizia em Emílio, ou da educação que a educação deveria criar um laço de cumplicidade entre o educando e o educador, para que se desenvolva no aluno sentimentos de amor, fraternidade e respeito, necessários à educação e à própria vida. É o pilar educacional da Unesco “aprender a viver juntos”, estabelecido em 1999, cujos meios de atingimento ainda são, em regra, inadequados no Brasil.

Educadores preparados sabem dar o máximo de liberdade às crianças sem permitir que elas percam o respeito ou causem transtornos. Para Rousseau, é até importante que as crianças sintam por si próprias a dor e o sofrimento, de forma a não crescerem frágeis e medrosas. Vide um trecho da obra Emílio, ou da educação: “Nossa mania pedante de educar é sempre a de ensinar às crianças o que aprenderiam muito melhor sozinhas e esquecer o que somente nós lhes poderíamos ensinar” (p. 59).

A educação deve ser uma valorização da liberdade e um conjunto de estímulos às faculdades naturais em comunhão com a igualdade e a fraternidade. É preciso encontrar um equilíbrio complexo, com maior peso nas faculdades naturais, fortalecendo empatia, tolerância, paciência, liderança, autonomia, resiliência, garra etc.

Em vez de carregar os alunos com disciplinas teórico-abstratas, o que torna a educação deprimente, deve-se agregar mais atividades práticas, buscando prender o interesse deles, fazê-los gostar da educação que recebem, um princípio básico, porém ainda muito esquecido ou incompreendido.

Não significa apenas aprender brincando, mas aprender o valor do aprendizado por meio de educadores que os inspirem a querer conhecer. Ela deve aprender a aprender, ou aprender a conhecer, outro pilar da Unesco.

A teoria pode emergir das discussões em sala, englobando por vezes diferentes disciplinas ao mesmo tempo. Daí porque as aulas conjuntas com discussão de um único problema são fundamentais para despertar desde cedo o pensamento complexo e a capacidade de entrelaçar conhecimento (transdisciplinaridade).

É claro que a criança, ser de maior ignorância, por ter acumulado menos saber, precisa ser dirigida e até obrigada a determinados comportamentos. Por outro lado, se o objetivo é chegar ao máximo de liberdade e de aperfeiçoamento das faculdades naturais, tornando-a menos “manipulada”, é preciso que ela passe a amar a educação e tenha interesse e espaço para buscar o conhecimento por si mesma.

“Antes que os preconceitos e as instituições humanas alterem nossas tendências naturais, a felicidade das crianças, bem como a dos homens, consiste no emprego de sua liberdade; mas essa liberdade, nas primeiras, é limitada pela sua fraqueza” (Emílio, ou da educação, p. 68).

A liberdade em Rousseau não significava uma visão do tipo neoliberal ou de libertinagem, mas de extinção do máximo de “falsas necessidades”, apropriando-nos da expressão de Roberto Mangabeira Unger, ou seja, de obrigações inúteis impostas aos indivíduos que apenas aprisionam autoritariamente o ser, fazendo-o morrer um pouco a cada dia, ideia de Rousseau apropriada por Unger.

É hora de uma reforma educacional brasileira que reestruture o ensino, buscando emancipar o ser, conferir-lhe liberdade de aprender por conseguir, ao mesmo tempo, despertar-lhe o amor pela educação e amainar os arrastamentos das frivolidades. Um dos grandes méritos da educação de Pestalozzi, segundo ele próprio afirma em Como Gertrudes ensina os seus filhos, foi o seguinte:

“Elas adquiriram consciência de si e o sentido de peso da vida escolar desapareceu da minha escola como que por encanto. Elas queriam, podiam e perseveravam, conseguiam e sorriam contentes. O estado de ânimo delas não era aquele de quem estuda, mas de quem sente que está desenvolvendo em si as forças vivas ignoradas e o sentimento que eleva o espírito e o coração nos quais se toma conhecimento de suas próprias forças”.

Uma das peculiaridades dos dois primeiros projetos de Pestalozzi é que, como as crianças eram muito humildes e/ou órfãs, elas moravam com ele na escola, não havendo interferências das relações no lar, que se confundia naquele caso com a própria escola. Isso diz muito sobre a importância da família na educação, como voltaremos a tratar nos futuros textos.

Para aprender a conhecer e para querer usar esse aprendizado, é preciso aprender a gostar de conhecer. É fundamental despertar logo cedo na criança a sede por conhecimento, por uma redução diária da sua ignorância via leitura e experiência, aproveitando os meios tecnológicos existentes hoje.

A decisão entre passar horas em redes sociais; ou assistindo séries e filmes; ou lendo, pesquisando e conhecendo; ou prestando trabalho voluntário; será determinada pela formação que as crianças tiverem na escola, mas, especialmente, dentro de casa. Esse período é fundamental para o definir o indivíduo que será formado e terá implicação numa porção de consequências sociais.

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