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Álvaro Lins: o liberal sem medo da democracia

Pela sua obra de crítica literária e pelo seu exemplo de altivez política, Álvaro Lins não deve e não pode ser esquecido pelos brasileiros. No primeiro plano, registra-se a perda daquele que Drummond não vacilou em qualificar, sem ironia, o “Imperador” da crítica do seu tempo; no segundo, apaga-se a trajetória exemplar de um liberal que não teve medo da democracia.

Do blog da Boitempo, 15 de Maio, 2017
Por José Paulo Netto.

Há pouco, em março passado, Miguel Urbano Rodrigues – o grande português e grande amigo do Brasil, certamente conhecido por aqueles que acompanham o Blog da Boitempo – publicou, em O Diário.info, uma nota evocativa de Álvaro Lins. Um texto breve e emocionado sobre uma das figuras mais nobres da inteligência brasileira no século XX e, lamentavelmente, das menos referidas nos tempos que correm*.

Compreende-se o quase silêncio contemporâneo sobre Álvaro Lins – entre outras razões porque, nas duas últimas décadas, o pensamento liberal foi de tal modo abastardado (também) entre nós que, nos dias de hoje, quem geralmente o reivindica verbalmente se acumplicia, na prática, aos mais abertos atentados aos direitos democráticos, sejam os políticos, sejam os sociais (e, explicável e coerentemente, a ambos). Para as correntes ideológicas afinadas com a retórica liberaloide, a evolução e o legado de Álvaro Lins não são facilmente digeríveis.

Há, porém, outros componentes que ajudam a compreender o perceptível exílio de Álvaro Lins da memória e do horizonte das gerações intelectuais mais jovens – o desconhecimento da nossa história, a superficialidade no trato da nossa herança cultural e o “presentismo” (que Hobsbawm anotou como fenômeno mundial da cultura capitalista posterior aos anos 1970). Nesta oportunidade, só é possível assinalar que esse exílio é lamentável: no plano da crítica literária, o principal âmbito do trabalho de Álvaro Lins, registra-se a perda daquele que Drummond não vacilou em qualificar, sem ironia, o “Imperador” da crítica do seu tempo; no plano da intervenção política, apaga-se a trajetória exemplar de um liberal que não teve medo da democracia. A crítica literária e a política: eis as duas portas pelas quais Álvaro Lins entrou na história brasileira e nela lhe asseguram, para além de modismos intelectuais e de conjunturas de degradação ideológica, um lugar de indiscutível relevância.

Álvaro de Barros Lins (Caruaru, 1912 – Rio de Janeiro, 1970) estudou na Faculdade de Direito do Recife (1931-1935), período em que lecionou em escolas secundárias e foi secretário do governo estadual. Era, então, um intelectual encharcado da cultura católico-integrista e com pretensões de fazer carreira político-institucional. Em 1937 abandona estas últimas e começa, gradualmente, a distanciar-se daquela e é quando passa a valer-se prioritariamente do jornal como veículo das suas ideias – ingressa no jornalismo no pernambucano e conservador Diário da Manhã (1937-1940).

No início dos anos 1940, mudou-se para o Rio de Janeiro e é a partir do seu trabalho no Correio da Manhã, exercido até 1956 e do qual chegou a ser redator-chefe, que ganhou reconhecimento como crítico literário. Em um tempo em que a crítica ainda não dispunha de recursos acadêmicos especializados e sofisticados, ele a exerceu sistematicamente nos suplementos literários de órgãos de imprensa (em avaliações exaradas em textos alocados aos rodapés desses suplementos). Vistas hoje, nem todas suas análises resistiram ao correr do tempo – até mesmo porque, ainda que coerente nas suas avaliações, Álvaro Lins apoiava-se numa concepção eclética da teoria literária. Mas o essencial dos seus juízos revelou-se resistente ao tempo: foi dos primeiros a saudar o Guimarães Rosa de Sagarana e a revelar que, em Jorge Amado, coexistiam “valor instintivo de romancista e miséria objetiva de escritor”. À época, sua postura judicativa sem dúvidas contribuiu para formar um gosto literário culto. E a sua independência como crítico, jamais conciliando com igrejinhas e compadrios literários e interesses editoriais, nunca foi questionada.

Sua cultura literária não se limitava ao produzido no Brasil – como o demonstra seu primeiro livro, de 1939, quando ainda não completara 30 anos: História literária de Eça de Queiroz, que todavia hoje merece leitura atenta. Não foi por acaso que, entre 1952 e 1954, foi professor convidado da Universidade de Lisboa. Em 1951, quando se tornou professor titular do Colégio Pedro II, conquistou a cátedra com o notável ensaio A técnica do romance em Marcel Proust. Também não foi por acaso que, em 1955, ganhou uma cadeira na Academia Brasileira de Letras – ali não chegou, como tantos, graças a arranjos políticos e/ou a conchavos literários.

Seu trabalho crítico – que, como todo trabalho similar, apresenta grandes momentos e passos problemáticos – começou a ser objeto de polêmica na transição dos anos 1940 aos 1950. Liderou uma verdadeira cruzada anti-Lins (acusado de ser um “impressionista”, um “crítico de rodapé”) o médico baiano Afrânio Coutinho (1911-2000) que, convidado para ser redator de Seleções do Reader’s Digest, aproveitou a temporada nos Estados Unidos (1942-1947) para dedicar-se a estudos de literatura. Voltou ao Brasil convertido ao new criticism e produziu obra prolífica, ingressou no Pedro II mediante o mesmo concurso prestado por Álvaro Lins, dirigiu a expressiva A literatura no Brasil (1955-1959, depois ampliada em novas reedições), também ingressou na Academia Brasileira de Letras (1962) e construiu uma feliz carreira universitária na Universidade Federal do Rio de Janeiro, ocupando a direção da sua Faculdade de Letras de 1968 a 1980. Impossível detalhar aqui a polêmica Coutinho/Lins, em que o médico baiano primou pela grosseria; mas, para além de eventuais méritos de Coutinho na defesa de um trato acadêmico-especializado,“científico”, da literatura, é fato que a partir dessa polêmica se constituiu um conjunto de preconceitos sobre a crítica de Álvaro Lins que são reproduzidos até hoje.

Foi na segunda metade da década de 1950 que Álvaro Lins tornou-se intelectual destacado na cena política. Através do Correio da Manhã, combateu frontalmente as conspiratas contra a posse de Juscelino Kubitschek, eleito presidente nas eleições de 1955 – e, agarrado aos preceitos constitucionais e a um firme credo liberal-democrático, contribuiu significativamente para a manutenção dos quadros da democracia consagrada na Constituição vigente (a de 1946). Empossado na Presidência, numa conjuntura conturbada, Kubitschek levou-o para a chefia da sua Casa Civil. No ano seguinte, o presidente, com os ânimos nacionais serenados, nomeou-o embaixador em Portugal.

No desempenho de sua “missão em Portugal”, Álvaro Lins acabou por colidir com a política externa patrocinada pelo presidente da República – que brindava à ditadura salazarista um expresso apoio, acobertando a brutal exploração do ultra-colonialismo português. A colisão tornou-se explícita em 1959, com o “caso Humberto Delgado”: Delgado, até poucos anos antes integrante do bloco fascista de Salazar, em 1958 descolou-se para a oposição democrática, foi esbulhado numa farsa eleitoral, teve sua integridade física ameaçada por Salazar (a mando de quem esbirros da PIDE haveriam de assassiná-lo em 1965) e pediu asilo na embaixada brasileira. Álvaro Lins concedeu-lhe o asilo, mas as hesitações do governo Kubitschek, pressionado por Salazar, tenderam a desautorizar o embaixador. Enfim concedido o asilo, Álvaro Lins exonerou-se e rompeu publicamente com Kubitschek, retornando ao Brasil para dedicar-se ao jornalismo cultural (de 1961 a 1964, quando se aposentou, dirigiu o então influente suplemento literário do carioca Diário de Notícias).

Sua coragem cívica ao solidarizar-se, na condição de embaixador, com os perseguidos pela ditadura salazarista** foi reconhecida no Portugal democrático (em dezembro de 1994, o governo português concedeu-lhe postumamente a Grã Cruz da Liberdade). E sua fundada denúncia do posicionamento internacional do governo Kubitschek influiu na construção daquela que logo depois ficou conhecida como a “política externa independente” brasileira.

A “missão em Portugal” pôs a prova as convicções democrático-liberais de Álvaro Lins – e nos poucos anos de vida que lhe restaram, a solidez delas continuou a revelar-se. Em 1960, foi uma das personalidades brasileiras que mais apoiaram a realização, em S. Paulo, da I Conferência Interamericana de Anistia para os Exilados e Presos Políticos da Espanha e de Portugal. Em 1962, chefiou a delegação brasileira ao Congresso Mundial da Paz, que se reuniu em Moscou. Nos dois anos seguintes, defendeu a legalidade democrática ameaçada entre nós. E quando sobreveio o golpe civil-militar de 1964, sua casa foi invadida e sua biblioteca devastada. Solitário e doente, viveu seus últimos anos em silêncio.

Pela sua obra de crítica literária e pelo seu exemplo de altivez política, Álvaro Lins não deve e não pode ser esquecido pelos brasileiros.


Vem aí… Margem Esquerda #28

Miguel Urbano Rodrigues é um dos autores do próximo número da Revista semestral da Boitempo. A Margem Esquerda #28 é uma edição especial, inteiramente dedicada ao centenário da Revolução Russa, que abre com uma longa entrevista com Anita Leocadia Prestes, e inclui um dossiê de capa sobre “feminismo, marxismo e a Revolução Russa, assinado por Maria Lygia Quartim de Moraes, Rejane Hoeveler e Wendy Goldman. Compõem a seção de artigos inéditos, além de Miguel Urbano Rodrigues, Michael Löwy, Slavoj Žižek e Ricardo Pazello. Na seção “Clássico”, um longo texto de György Lukács, e na seção “Documentos”, dois preciosos textos de Valentina Terechkôva e Astrojildo Pereira. A seção de poesia, editada por Flávio Wolf de Aguar, traz um poema de Maiakovski, traduzido e comentado pelo editor. A seção de imagens, coordenada por Sergio Romagnolo, traz obras de Kazimir Malevich.


NOTAS


* O conjunto da crítica literária de Álvaro Lins e coligida nos 7 volumes do seu Jornal de crítica (1941-1963), editados no Rio de Janeiro pela José Olympio (6) e o último (7) pela O Cruzeiro, é hoje uma raridade bibliográfica; parte dessa crítica foi reunida em Os mortos de sobrecasaca e O relógio e o quadrante (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1963/1964). O essencial da sua experiência diplomática está relatado em Missão em Portugal (idem, 1960); e ensaios de natureza cultural e política encontram-se em A glória de César e o punhal de Brutus (idem, 1963); de reedições mais recentes, só tenho conhecimento da coletânea Álvaro Lins: sobre crítica e críticos (Recife: CEPE, 2012), organizada por Eduardo Cesar Maia, estudioso da sua obra. Poucos são os materiais sobre ele divulgados em escala nacional – p. ex., A obra crítica de Álvaro Lins e sua função histórica, de Adélia B. de M. Bolle (Petrópolis: Vozes, 1979) e O pensamento crítico de Álvaro Lins, de Antonio Brasil (Recife/Rio de Janeiro: Fundarpe/José Olympio, 1985); de fatura recente, cf. o artigo de L. C. Machado dos Santos, “Álvaro Lins. Caráter e função: dilemas e contradições de um embaixador do Brasil em Portugal” (Clio. Revista de Pesquisa Histórica. Recife: Departamento de História da UFPE, 34.1, 2016).

** Coragem de que também deu provas sua esposa, a embaixatriz Heloísa Lins. Ela testemunhara, em agosto de 1958, de sua casa, fronteira à sede da PIDE, o assassinato do militante comunista Raul Alves e denunciou o crime ao Cardeal Cerejeira – graças à sua denúncia, o regime não pôde ocultar o fato (cf. Irene F. Pimentel, A história da PIDE. Lisboa: Círculo de Leitores, 2007, p. 99).

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José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é coordenador da “Biblioteca Lukács“, da Boitempo. Recentemente, organizou o guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015). No Blog da Boitempo escreve mensalmente, às segundas, a coluna “Biblioteca do Zé Paulo: achados do pensamento crítico“, dedicada a garimpar preciosidades esquecidas da literatura anticapitalista.

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