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Indústria 4.0 é prioridade de Estado, mas fora do Brasil

Implantada por Obama e Merkel nos seus países, a manufatura avançada é uma questão menor por aqui


Da Carta Capital, 7 de Abril, 2017


Merkel e Obama na feira industrial de Hannover, em 2016, à frente das inovações

Prioridade de Estado nos Estados Unidos e na Alemanha, a revolução da indústria possibilitada pela combinação das tecnologias digital, da informação e de produção é uma questão menor para o governo brasileiro, limitada a ações esparsas.

A assim chamada manufatura avançada foi lançada nos Estados Unidos pelo ex-presidente Barak Obama, em cerimônia na Casa Branca, e sua equivalente alemã, a indústria 4.0, é encabeçada pela chanceler Angela Merkel. Os dois mandatários visitaram fábricas com frequência para acompanhar o avanço dos programas, desde a sua implantação. Em Brasília, as ações do esvaziado Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços são, entretanto, pontuais e escassas.

“Após a consulta, no ano passado, a mais de 300 especialistas da sociedade civil, 65% deles representantes de empresas, a Política Nacional de Manufatura Avançada está em elaboração. Atualmente, são realizados estudos e a articulação com diferentes instituições para o seu lançamento no segundo semestre deste ano”, informou o MDIC a esta revista. Além disso, o ministério enviou pesquisadores aos Estados Unidos e à Alemanha para se inteirarem dos novos desenvolvimentos da indústria.

Segundo o diretor-executivo de Tecnologia da Abimaq, João Alfredo Delgado, “na indústria 4.0, o problema não é tecnológico, pois todas as tecnologias são dominadas no mundo, o Brasil incluído. Articulá-las ao mesmo tempo, diz, é que é ‘o pulo do gato’, mas há empresas locais aptas para a missão”.

O País tem tanto integradoras de software (programas de computação), como a SKA e a PLMX, concorrentes da alemã Siemens e da francesa Dassault, quanto de hardware (máquinas), a exemplo da Totvs e da MCK, que disputam com a italiana Comal e a germânica Thyssenkrupp Engineering, entre outros participantes do segmento. Todas utilizam engenharia de integração brasileira.

Grandes e médias indústrias locais avançam na fase 4.0, a começar por líderes setoriais como Embraer, Volkswagen, AmBev e Jeep, segundo o noticiário, mas a modernização ainda é um objetivo distante para a maioria das firmas. Uma das dificuldades da transição é superar a “cultura empresarial” ancorada no padrão de controles físicos da produção, por meio de papéis, mapas e formulários, e adotar o sistema digital.

Outra é obter financiamento a custos abaixo da lucratividade das empresas. Uma miragem, quando o governo, indiferente ao impacto de dois anos de recessão nas empresas, quer elevar os juros do financiamento de longo prazo do BNDES ao patamar das taxas elevadíssimas cobradas pelos bancos privados.


O requisito mais importante, no entanto, é tornar a indústria 4.0 uma questão de Estado, julga Delgado. “O governo tem de assumir a liderança, é o presidente da República quem deve estar à frente do programa, mostram os exemplos dos países avançados.”

Enredado na Lava Jato, recordista de impopularidade e sob ataque crescente dos prejudicados pela eliminação de direitos sociais, o Executivo não parece, porém, em condições de assumir o papel sugerido.

. O secretário Marcos Souza, do terceiro escalão do MDIC, representa o Brasil em eventos sobre a manufatura digital, em Berlim, em marçoMario Salerno e Eduardo Zancul, professores da Escola Politécnica da USP enviados pela Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, do MDIC, aos Estados Unidos e à Alemanha, constataram a abrangência e a solidez da reconversão da manufatura nos dois países. Ambos participaram de seminário da Fundação Vanzolini, ligada à Poli, para relatar suas experiências.

“O programa foi feito na Casa Branca, o ex-presidente Barak Obama convocava as reuniões com presidentes de indústrias e de associações empresariais”, salientou Salerno.

Em 2011, chegou-se a uma formulação. Uma secretaria de manufatura avançada reúne as principais áreas envolvidas em uma coordenação executiva. Participam os ministérios da Energia, da Defesa, a Nasa, universidades e as empresas realizadoras dos projetos.

A Alemanha, constatou Zancul, tem um programa amplo e estruturado de desenvolvimento da manufatura iniciado em 2011, com a união de esforços de entidades de classe, associações de empresas, fabricantes de máquinas e de software, academia e governo. A iniciativa, denominada indústria 4.0, é coordenada pelos ministros da Economia e Energia e da Educação e Pesquisa.

No início, na fase pré-competitiva, o trabalho é feito por numerosas empresas, inclusive concorrentes. O primeiro objetivo é fortalecer o setor industrial como exportador de tecnologia e o segundo, impulsionar a produção voltada para o mercado interno.

“Os programas alemão e americano buscam aumentar o surgimento de novas plantas industriais, em um movimento oposto àquele dos anos 2000, de grandes investimentos dos países desenvolvidos na criação de capacidade produtiva externa, especialmente na Ásia. Isso desarticulou o sistema industrial, mais fortemente nos Estados Unidos e menos na Alemanha”, sublinha Zancul.

Esses países, diz, consideram a retomada da indústria local essencial para manter elevado o seu nível de desenvolvimento e de renda e agora buscam, com novas tecnologias e diante do aumento dos salários na Ásia e em outras regiões, impulsionar a produção doméstica.

No Brasil, há um hiato tecnológico na manufatura avançada e menor densidade de empresas atuantes nessa área, mas existe também uma série de iniciativas de empresas, entidades de classe, no governo e no Senai, enfatiza Zancul. “Não se trata, entretanto, de uma transição possível de um dia para o outro.”

A transição para a manufatura avançada traz o risco real de desativação de subsidiárias de empresas multinacionais nos países subdesenvolvidos e sua compensação pelo aumento da produção nas matrizes, inclusive com a generalização do uso de robôs, cada vez mais baratos diante dos salários dos trabalhadores nas economias atrasadas.

Em contrapartida, “movimentos de ruptura tecnológica abrem oportunidades para novas empresas, iniciativas e modelos a partir de países como o Brasil, mas é preciso agilidade e investimento”, acentua Zancul.

“Costuma-se apontar o industrial como culpado pelo hiato tecnológico do País, por investir menos que o resto do mundo em inovação. Ocorre que as empresas vivem em um ambiente ácido, com juros e spreads sem paralelo, e investimento implica fazer financiamentos. Os competidores estrangeiros dos fabricantes locais de máquinas e equipamentos são financiados a taxas próximas de zero e os locais pagam juros acima de 12%”, aponta Delgado.

“É mais fácil, entretanto, dizer que o Brasil não tem condições de encaminhar a transformação, portanto, vamos importar máquinas. Foi o que aconteceu com a Petrobras, quando o governo diminuiu os porcentuais de conteúdo local mínimo obrigatório para o setor de óleo e gás”, acusa o diretor da Abimaq.

João Alfredo Delgado, Diretor de Tecnologia da Abimaq (Baptistão)

“O Brasil é o lugar certo para estar, tem uma indústria de plástico forte e as dificuldades da economia são transitórias”, sublinhou Thorsten Kürmann, diretor-executivo da Câmara Setorial de Máquinas para a Indústria do Plástico e da Borracha, associação alemã de fabricantes de máquinas.

Palestrante do Seminário Internacional Plástico Brasil – Rumo à Indústria 4.0, realizado em São Paulo, o executivo mostrou, na segunda-feira 20, a importância do mercado brasileiro de máquinas para a elaboração de produtos de plástico e borracha. O País produz em equipamentos o equivalente a 100 milhões de euros, mas importa 400 milhões e só exporta 46 milhões.

Com a indústria tornada prioridade de Estado, haveria uma chance de reter no País ao menos uma parte do dinheiro gasto com importações e destiná-lo à compra de máquinas e equipamentos produzidos pelos fabricantes locais. A probabilidade de isso acontecer nunca pareceu, no entanto, mais remota.

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