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A hipossuficiência da política

"A política tem a sua fonte na perversidade
e não na grandeza do espírito humano"
(Voltaire, pensador francês do século 18)


DO iela,12 de Abril de 2017, 
por Dalton Rosado


A política (do grego politike) nada mais é do que a forma jurídico-institucional de legitimação de um jugo qualquer. Assim, a forma-política é imanente à opressão institucional e para se negar a opressão há que se negar a política e seu elo indissolúvel, a forma-estado, sua expressão instrumental materializada.

Ao longo do tempo se firmou a ideia de ontologização da política como o exercício da liberdade de agir socialmente, que tanto pode ocorrer para o bem como para o mal. Daí a noção comumente aceita de que se deve dominar o conhecimento da política e dela participarmos como modo de conduzi-la para o bem comum.

Até o grande dramaturgo Bertold Brecht incorreu neste erro, ao criticar o analfabeto político como alguém que, por desconhecer os meandros da política e dela não participar, estaria ensejando a manipulação da dita cuja pelos que a compreendem. Pode-se e se deve conhecer e combater, sim, o conteúdo intrínseco da política sem dela participar; e isto justamente por termos consciência de como são opressores os seus limites e enquadramentos!

Devemos conhecer os meandros da política não para nela nos inserirmos, mas para negá-la. O saber filosófico e teórico consistente que pode nos conduzir a uma práxis emancipatória é algo diferente da participação política que sempre remete à ideia de poder representativo vertical que deve ser negado. O melhor saber filosófico e teórico é o que nega a política.

Isto se aplica às sociedades opressoras em geral, ou seja, tanto àquelas essencialmente escravocratas (escravismo direto) quanto às modernas sociedades liberais burguesas (escravismo indireto do trabalho abstrato).

Estas últimas, fundadas nos sub-reptícios princípios da razão iluminista e, portanto, tidas como livres, justamente por possuírem caráter despótico sempre necessitaram e necessitam da política como instrumento jurídico-institucional para fazer valer os seus jugos com pretensa legitimidade outorgada. Objetivam interiorizar na consciência coletiva a passividade e a obediência à espoliação sob o pálio de um determinado código de conduta coercitiva.

A política como canal de legitimação do poder do Estado nas modernas sociedades capitalistas, por não ter vontade soberana, agora evidencia a sua verdadeira natureza e passa a ser mera cumpridora das regras de mercado no estágio depressivo do limite interno absoluto de expansão capitalista.

Impõe ao povo sacrifícios inauditos, tudo como forma de salvar o seu senhor e Deus todo poderoso da vida social – a forma-valor (vide reforma da previdência social no Brasil, exemplo mais recente e ilustrativo).

Superar a política é superar o Estado e a sua forma de mediação social decrépita, consistente no dinheiro e na mercadoria.

Mas, se a política é hipossuficiente no sentido de promover mudanças sistêmicas, bem como no de prover a satisfação plena das sociedades humanas como um todo, ela é hiper-suficiente no sentido de se manter pela força, razão pela qual são tão frequentes as guerras em todo o planeta, sua resultante direta.

Afinal, a guerra não é somente o móvel de dominação política e econômica sistêmica, como também um importante negócio de venda de armas. A política legitima o Estado, que incentiva a economia de onde tira o seu sustento; e a indústria bélica contribui, tanto no sentido de manutenção do poder manu militari, quanto impulsionando significativamente o tão desejado crescimento do PIB.

Enquanto milhões de pessoas morrem de fome na Somália, Sudão, Etiópia, Iêmen e Nigéria, no leste e centro-oeste africano, sem que as potências econômicas mundiais se mobilizem para estancar tal genocídio, sobram recursos para alimentarem-se guerras estratégicas pela hegemonia político-econômica como se vê na Síria e no Iraque.

Entretanto, os artefatos legitimadores da política no campo institucional – quais sejam o processo eleitoral (uma farsa de livre escolha regida pelo poder econômico), os políticos e seus partidos políticos (enquadrados a priori na lógica econômica que os sustenta), o conceito de democracia e o próprio aparelho de Estado –, por serem servos e instrumentos indutores da socialização coercitiva pelo sujeito automático da forma-valor (Marx), entram em crise de credibilidade e da própria sustentação graças à dessubstancialização da forma-valor a que estão submissos.

Tanto no campo da direita quanto no da esquerda existem saudosistas dos velhos e bons tempos em que se discutia na esfera política (de forma democrática) a distribuição do dinheiro e a luta pela franquia dos direitos (ainda que parcos e localizados, como a extensão do voto às mulheres) próprios à cidadania, de que tanto se beneficiavam os partidos e os políticos. Agora, diante da falência sistêmica econômica, bem como da ineficácia da política no cumprimento de sua função regulamentadora, veem-se órfãos dos seus nortes referenciais, enquanto se evidencia para a população a farsa de sua eficácia representativa.

Os políticos tradicionais são hoje execrados pela população. Esta, ao invés de superar a própria política, elege outsiders que se apresentam como apolíticos, nada mais sendo, contudo, do que políticos envergonhados de se colocarem como tal, mas que almejam o poder político-estatal e lutam por sua manutenção a qualquer custo.

Outsiders apenas fingem ser apolíticos

Há conceitos de organização da vida social, como o é a política, que viram ciência social; e, mais do que isto, terminam por ser vistos como condição de imprescindibilidade, acima do bem e do mal. Daí se dizer equivocadamente que há política com “P” maiúsculo. Não há.

Vejamos um exemplo metafórico. O homem inventou a roda, que a partir daí se tornou imprescindível para a evolução da vida social humana. Obviamente, não se pode criticar a invenção da roda como fator social contributivo, apesar de se poder criticar a qualidade da roda;considerar a de madeira inferior à roda de pneus de borracha, etc.

Da mesma forma, sacralizou-se equivocadamente a política como um ganho evolutivo imprescindível à organização social; a partir daí, só se pode criticar a qualidade da política, nunca a sua existência.

Não se compreende que ela é categoria integrante de um modo específico de organização social, da qual é serviçal sem soberania de vontade. A política não pode subverter a essência da ordem social à qual serve, daí decorrendo a necessidade de se criticá-la como instrumento capaz de promover a libertação e a emancipação.

Os chamados cientistas políticos (hoje muito em voga para nominar muitos palpiteiros sociais) somente podem raciocinar e pensar dentro da caixa, ou seja, têm de descobrir fórmulas para contornar os problemas causados por uma ordem social decadente que clama por sua própria superação e não por reformas no seu interior. Neste sentido, a crítica radical à economia política é a anti-cientista política.
A única saída, portanto, é a negação da política e de todas as categorias institucionais que dão suporte à modalidade de mediação social da forma-valor, que está em rota progressiva de colapso.

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